Como Avaliar o Currículo de um Advogado Antes de Contratar (Guia para Donos de Escritório)
- Mariana Gonçalves

- há 2 dias
- 5 min de leitura

Resumo rápido: Avaliar currículo de advogado para contratação exige um olhar diferente do que se ensina nos guias tradicionais de RH. Não basta checar grade curricular e estágios — é preciso identificar sinais de trajetória, consistência e fit com a cultura do escritório. Este guia mostra o que procurar além do óbvio, os sinais de alerta que currículos bem escritos costumam esconder, e como transformar essa triagem em uma entrevista que realmente prevê desempenho.
Por que a maioria dos donos de escritório contrata errado
Existe muito conteúdo na internet sobre como fazer um currículo de advogado — e praticamente nada sobre como lê-lo do outro lado da mesa.
Isso é um problema, porque quem nunca foi treinado para contratar acaba avaliando currículos da forma mais intuitiva possível: olha para a faculdade, olha para os estágios, olha se o português está correto, e decide com base numa impressão geral. O resultado costuma ser uma contratação baseada em "parece competente no papel" — que é exatamente o tipo de avaliação que um candidato bem orientado sabe produzir, independente de quem ele realmente é.
Advogado escreve bem. Isso é dado. Um currículo malfeito raramente é o problema — o problema é confiar demais num currículo bem escrito.
Contratar bem na advocacia não é sobre achar o currículo mais impressionante. É sobre saber o que aquele documento não está te dizendo.
O que procurar num currículo de advogado além da grade de matérias
Quando você recebe currículos para uma vaga de associado ou estagiário, três elementos costumam revelar mais do que qualquer linha de "experiências profissionais":
Consistência de trajetória. Um candidato que ficou seis meses em cada estágio, em áreas completamente diferentes do direito, não é necessariamente um problema — mas é um sinal que merece pergunta direta na entrevista. Da mesma forma, alguém que passou anos numa mesma área específica mostra ou especialização genuína, ou dificuldade de adaptação. Nenhuma das duas leituras é automática; ambas precisam ser verificadas, não assumidas.
O verbo, não o substantivo. A maioria dos currículos lista cargos e instituições. Os melhores descrevem o que a pessoa efetivamente fez: "elaborei", "conduzi", "revisei", "negociei". Currículos que só listam onde a pessoa esteve, sem dizer o que fez ali, costumam escondir falta de autonomia real na função anterior — não necessariamente por culpa do candidato, mas é informação que falta para você decidir.
Alinhamento com o que o seu escritório precisa agora. Um currículo brilhante para uma vaga de contencioso trabalhista pode ser irrelevante para um escritório que precisa de alguém para atividade-fim em direito imobiliário. Antes de avaliar qualquer currículo, é preciso ter clareza sobre qual problema essa contratação resolve dentro dos quatro pilares do seu escritório — comercial, atividade-fim, financeiro ou estrutura.
Sinais de alerta que currículos bem escritos costumam esconder
Alguns padrões aparecem com frequência em currículos tecnicamente impecáveis, mas que merecem atenção extra na entrevista:
Excesso de adjetivos, ausência de resultado. "Proativo", "dedicado", "comprometido" sem nenhum exemplo concreto que sustente essas palavras.
Listas de cursos sem aplicação aparente. Um candidato pode ter feito dez cursos de extensão e nunca ter aplicado nenhum deles na prática. Curso no currículo prova interesse, não competência.
Passagens curtas e recorrentes por vários escritórios. Pode ser simplesmente o mercado, pode ser perfil de quem busca oportunidade, ou pode indicar dificuldade real de adaptação a equipe e rotina. A única forma de saber é perguntando.
Ausência total de menção a trabalho em equipe ou supervisão. Em escritórios pequenos e médios, capacidade de colaborar pesa tanto quanto conhecimento técnico — e raramente aparece espontaneamente no currículo.
Nenhum desses pontos, isoladamente, deveria eliminar um candidato. Eles existem para te dizer o que perguntar, não para te dizer quem descartar.
Como estruturar a entrevista a partir do que você viu no currículo
O currículo é só a primeira camada. A entrevista é onde você valida — ou descarta — as hipóteses que o documento sugeriu.
Uma estrutura simples e eficaz:
Comece pelas lacunas, não pelos destaques. Pergunte sobre as transições de carreira, os períodos curtos, as áreas que parecem desconectadas entre si. É ali que normalmente está a informação mais valiosa.
Peça exemplos concretos para cada adjetivo. Se o currículo diz "perfil analítico", peça um caso real em que essa característica fez diferença no resultado entregue ao cliente.
Avalie fit cultural, não só fit técnico. Um advogado tecnicamente excelente, mas que não se encaixa na cultura e na rotina do seu escritório, tende a gerar mais desgaste de gestão do que ganho de produtividade.
Tenha clareza sobre o plano de carreira que você está oferecendo. Candidatos bons perguntam sobre crescimento. Se o seu escritório não tem um plano de carreira estruturado para associados, essa pergunta vai te pegar desprevenido — e o candidato vai perceber.
A contratação não termina na assinatura do contrato. Ela começa ali.
Perguntas frequentes
O que mais importa num currículo de advogado para contratação: a faculdade ou a experiência prática?
Depende da vaga e do momento do escritório. Para posições juniores, a experiência em estágios costuma pesar mais do que o nome da instituição de ensino. Para posições que exigem autonomia imediata, a experiência prática comprovada tem peso decisivo, independente da formação acadêmica.
Como saber se um candidato vai se encaixar na cultura do escritório só pelo currículo?
Não é possível saber só pelo currículo. O documento pode indicar sinais — como o tipo de ambiente em que o candidato trabalhou antes — mas o fit cultural só é validado na entrevista, com perguntas sobre situações reais de trabalho em equipe e tomada de decisão.
Vale a pena contratar um advogado recém-formado sem experiência prática?
Pode valer, especialmente se o escritório tem capacidade de treinar e um plano de carreira estruturado. O risco está em contratar sem esse plano definido, porque a falta de direção tende a gerar rotatividade alta logo nos primeiros meses.
Quais perguntas eu devo fazer na entrevista que o currículo não responde?
Perguntas sobre os motivos reais das transições entre estágios ou empregos, exemplos concretos de situações em que o candidato teve que tomar decisão sob pressão, e o que o candidato espera em termos de crescimento dentro do escritório nos próximos anos.
Como estruturar um processo de contratação que evite erros de avaliação?
O processo precisa ter critérios definidos antes de receber o primeiro currículo — quais habilidades são inegociáveis, qual é o pilar do escritório que essa contratação vai fortalecer, e que perguntas vão validar (ou descartar) as informações que aparecem no currículo.
Continue aprendendo
Avaliar currículo é só o primeiro passo de um processo de contratação que realmente funciona. Na Comunidade Caixa Preta da Advocacia, você encontra a:
Aula 91 — Advogados associados: quando e como contratar, a
Aula 150 — Formas de contratação para escritórios de advocacia e a
Aula 112 — Plano de carreira para advogados associados, que juntas formam um guia completo para estruturar a contratação e a retenção da sua equipe.
Se o seu escritório está crescendo e você sente que cada contratação ainda é feita por instinto, é hora de ter um processo.



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